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O
Relógio
Marise
Ribeiro
Naquele
dia,
acordei
orgulhosa
de mim,
confiante,
sentindo-me
uma
verdadeira
atriz.
Sentimento
que não
havia
experimentado
dois
dias
antes; ao
contrário,
na
véspera
da minha
apresentação
em uma
peça de
teatro
na
escola
primária,
onde cursava
a 4ª
série,
acordei
nervosa.
Não
havia
ainda
decorado
a minha
fala
na peça
– e eu
era a
personagem
principal:
um
relógio.
O mais
difícil
de tudo
era que
o texto
a
decorar
para a
apresentação
estava
em forma
de
poesia.
Tudo
rimado,
com
ritmo, o
que
naquela
época me
pareceu
extremamente
difícil.
Era meu
primeiro
contato
com o
teatro e
a
poesia.
Eu
representaria
um
relógio
da casa
de um
maquinista
de trem
que, ao
despertar
atrasado,
criava
um caos
na vida
de
vários
trabalhadores,
dependentes
do
horário
certo na
passagem
do
trem.
Este
atraso
gerava
uma
cadeia
de
outros
atrasos
e toda a
cidade
era
afetada
por um
simples
relógio.
O texto
era
longo e
precisava
ser
decorado,
mas eu
não
havia
conseguido
ainda.
Então,
lembrei-me
de uma
amiga e
pedi que
viesse
até
minha
casa,
para me
ajudar a
decorá-lo.
A peça
seria
encenada
na manhã
do dia
seguinte, e
eu só
tinha a
parte da
tarde,
para
saber
tudo na
ponta da
língua...
E eu
consegui!
No dia
seguinte,
o pátio
da
escola
estava
lotado
de pais,
avós,
tios e
convidados
dos
alunos,
e eu,
tranquila,
nos
bastidores
que
ficavam
atrás do
palco,
com a
minha
roupa de
relógio.
Era
miudinha
e
magrinha,
mas com
aquela
fantasia
de relógio
redondo –
que
deixava
de fora
apenas a
minha
cabeça,
meus
braços e
minhas
pernas
–, eu me
sentia
enorme e
poderosa.
Ao tocar
a
sineta para
que a
plateia
fizesse
silêncio,
entro em
cena e
me
coloco
num
canto do
cenário,
que
representava
o quarto
do
maquinista.
A peça
começa e
me
entrego
totalmente
à
personagem.
Só me
dou
conta ao
final,
quando
vejo a
plateia
de pé,
aplaudindo
e
pedindo
bis.
Pronto –
pensei –
minha
tarefa
estava
cumprida!
Ledo
engano.
Quando
estávamos
trocando
de
roupa,
atrás do
palco,
chega
minha
professora,
D.
Dalva, e
diz:
-
Parabéns
a
todos!
O
sucesso
foi tão
grande
que a
Diretora
quer que
vocês se
apresentem
amanhã
para o
turno da
tarde.
Naquele
tempo,
as
melhores
turmas
ocupavam
o turno
da
manhã e
as
turmas
com os
alunos
mais
fracos,
à tarde.
É
interessante
ressaltar
que
havia
uma
rivalidade
entre os
dois
turnos,
principalmente
quando
nos
encontrávamos
na hora
da
saída.
Fui
embora
pra casa
pensando:
será
mais um
sucesso!
Se,
na primeira
apresentação,
eu havia
estado confiante, fui elogiada
por
todos
que me
encontraram
na saída
da
escola, tinha
dito o
texto de
cor e
com
segurança,
jamais
poderia
imaginar
que as
coisas
iriam
correr
de forma
diferente
na
segunda
apresentação...
Fui à
escola
pela
manhã e
voltei
pra
casa,
almocei,
passei o
texto
novamente
e teria
de retornar
para
lá por
volta
das
16:00
h, já
que a
peça
seria
apresentada
às 17:00
h,
depois
que
terminassem
as aulas
do turno
da
tarde.
Aproximadamente
às 14:00
h, o
tempo
começou
a virar
com uma
forte
ventania,
daquelas
bem
típicas
do mês
de
agosto.
Minha
rua era
arborizada,
o que
dava a
impressão
de que a
intensidade
do vento
era
ainda
maior.
Foi,
então,
que
minha
mãe
decretou:
- Você
não vai
voltar à
escola
com esse
tempo!
Comecei
a chorar
e
repetia
pra ela
que “eu” não
poderia
faltar,
pois era
a
personagem
principal
da
peça. E
minha
mãe,
inabalável:
- Não
haverá
teatro,
as
pessoas
não
aparecerão
com este
tempo
horrível!
Na hora
marcada
para o
começo
da
peça, a
ventania
já havia
diminuído;
mesmo
assim,
minha
mãe
decidira
que eu
não
iria.
Eu
ficava
doente
com
facilidade
e ela,
com medo
de que
aquele
tempo me
afetasse,
ficou
irredutível
até o
fim, mas
sempre
me dando
a
certeza
de que a
peça
iria ser
transferida
para
outro
dia.
Aquele
dia
passou e
chegou
o seguinte,
o que eu
gostaria
de ter
riscado
do meu
calendário.
Fui para
a
escola;
chegando
lá,
alguns
colegas
me
evitavam,
outros
debochavam.
Dirigi-me,
então, à
sala de
aulas,
sem
entender
direito
o que
estava
acontecendo,
até a
chegada da
professora
Dalva.
Ela se
encaminha
direto
para a
minha
carteira
e diz:
- Muito
bonito,
Marise!
Você foi
perfeita
no seu
papel de
relógio.
Não
apareceu
para a
apresentação,
atrasou
a vida
de todo
mundo
que veio
até a
escola,
mesmo
enfrentando
um tempo
desfavorável;
mostrou
com isso
como um
relógio,
que não
funciona
direito,
pode
atrapalhar
o
trabalho
de
todos.
Eu, sem
querer,
tinha
transmitido
a
mensagem
da peça,
mas da
pior
maneira
possível.
Talvez
por
isso,
hoje eu
seja uma
pessoa
extremamente
pontual
e
responsável
com
relação
aos meus
compromissos.
Música:
Danny
Wright -
Time
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