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O Natal
do Noel
Marise
Ribeiro
Dia 24 -
10:00 h
Trim,
trim,
trim...
- Alô!
- Seu
Noel,
aqui é a Creuza.
- Cleuza,
você
sabe que
horas
são?
Você já
deveria
estar
aqui
trabalhando,
pois
hoje tem
muito
serviço.
- Pois é
Seu
Noel, eu
tô
ligando
pra
avisar
que não
vou
trabalhar
pruque o
senhor
não me
pagou o
13º
salário.
- Mas
Cleuza,
você não
pode
fazer
isso
comigo
logo
hoje,
véspera
de
Natal!
Eu já
lhe
expliquei
que a
vida
está
difícil
pra todo
mundo e
a minha
situação
financeira
piorou
muito de
uns
tempos
pra cá.
Antigamente,
as
crianças
só me
pediam
caminhõezinhos
de
madeira,
bonecas,
quebra-cabeças,
panelinhas,
essas
coisas
mais em
conta,
agora
eles só
querem
celular,
Ipod,
computador,
MP3, MP4
e por aí
vai...
Não há
verba
que dê
para
tudo
isso! O
governo
prometeu
um
subsídio,
mas, com
essas
CPIs,
está
tudo
parado
neste
País,
além do
mais os
donativos
que eu
arrecadei
durante
o ano
não
renderam
quase
nada na
poupança.
Cleuza,
tenha um
pouco de
paciência.
Assim
que
passar
os
primeiros
meses do
ano e eu
quitar o
IPVA, o
seguro
do trenó
e mais o
IPTU
aqui de
casa, aí
sim, eu
acertarei
suas
contas.
- Seu
Noel,
não dá
não! Eu
tô
ligando
da casa
de uma
madame
que
minha
amiga
Gildete
arrumou
preu
defender
uns
trocados
hoje.
Tenho de
comprar
a ceia
lá pra
casa. O
senhor
sabe né,
os
brinquedos
das
criançada
estão
garantidos
pelo
traficante
da
comunidade,
mas o
frango,
o arroz,
a farofa
e a
maionese
é por
minha
conta.
- Mas
Cleuza,
como vou
me
arranjar
sozinho
hoje?
Tem a
minha
roupa de
Papai
Noel pra
lavar e
passar,
a minha
ceia pra
eu comer
quando
voltar
das
entregas,
presentes
para
embrulhar
e
etiquetar,
e ainda
quero
pegar a
liquidação
de
véspera
de Natal
da Casa
& Vídeo
e das
Lojas
Americanas,
para
tentar
encontrar
algumas
pechinchas.
- Ah,
seu Noel
sinto
muito!
Eu vou
desligar
antes
que a
madame
recrame.
Bom
Natal e
bom
servício
pro
senhor.
- Tô
lascado!
E assim
foi o
dia de
Noel:
lavou a
roupa,
botou
para
secar no
varal,
foi até
a
padaria,
comprou
um
franguinho,
a farofa
e o
refrigerante
para a
ceia.
"Poderia
comprar
um
vinho”,
pensou.
“Nem
pensar!
Vai que
eu
esqueço
de algum
presente
e tenho
de
retomar
a
entrega
depois
de ter
bebido
álcool?”
Embrulhou
e
ensacou
os
presentes,
depois
foi para
as
liquidações,
enfrentou
filas
gigantescas,
o cartão
de
crédito
foi
rejeitado,
levou
horas
tentando
convencer
o
gerente
que seu
nome não
estava
sujo no
SPC e,
depois
de muita
insistência,
o
gerente
lhe deu
um
crédito,
já que
Noel é
cliente
antigo.
Voltou
pra
casa,
passou a
roupa,
que já
estava
seca, e
levou o
trenó
com as
renas
para uma
lavagem
automática
no
posto.
Depois
tomou um
banho,
carregou
o trenó
e foi
embora.
Quando
já
estava
na
metade
do
caminho,
aconteceu
o que
ele
temia: o
trenó
parou.
As renas
cansaram
porque
Noel,
sem
dinheiro
durante
o ano,
não pode
trocá-las
por
outras
mais
novas.
Terminou
as
entregas
a pé já
pela
manhã e
exausto.
Dia 25 -
10:00 h
Trim,
trim,
trim,
trim,
trim,
trim,
trim....
-
Alôoooo!
- Seu
Noé,
aqui é o
Severino.
- Que
Severino?
Não
conheço
nenhum
Severino.
E você
sabe que
horas
são
agora
para
estar me
telefonando?
Além do
mais eu
me chamo
Noel e
não Noé!
- Seu
Noé, é
Severino,
o
porteiro,
eu estou
no
interfone
e não no
telefone.
-
Desculpe,
Severino,
é que
fui
dormir
pela
manhã e
estou
ainda
zonzo de
tanto
sono,
mais
tarde eu
vejo
esse
negócio
de
caixinha
de
Natal...
- Seu
Noé não
é isso
não!...
É que a
polícia
está
aqui
dizendo
que o
senhor
tem de
ir à
delegacia
para
prestar
depoimento
porque o
seu
trenó
foi
usado
num
assalto...
- Seu Noé, ô
seu Noé,
cadê o
sinhô?
Está me
ouvindo?...
27/11/05 |