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Carência
do Além
Marise
Ribeiro
É aniversário da avó, já
falecida.
Mãe, tia
e irmãs
também
se
preparam
para ir
ao
cemitério
levar
flores e
saudade
àquela
que
havia
sido
para ela
mais do
que avó,
mas quem
lhe
ensinara
a ler,
apesar
dos
parcos
sete
anos de
convivência.
Ela, ansiosa, vestido
branco
engomado,
laços na
cintura
e no
cabelo,
babados
avolumando
o
corpinho
magro e
franzino,
teria
seu
primeiro
contato
com um
campo-santo.
Tudo preparado com
capricho
pela
mãe, que
sempre
confeccionava
as
roupas
das
quatro
filhas.
Uma
escadinha
de
idades.
Trabalho
quadruplicado
para
vestir e
educar.
A irmã,
tia das
meninas,
ajudava-a
na
tarefa
de
cuidar.
Solteirona,
morava
com a
irmã, o
cunhado
e as
sobrinhas.
Trabalhava
fora,
mas se
fazia de
segunda
mãe,
quando
era
preciso.
Por adorar a avó, a
menina
pede
para
levar as
flores,
um buquê
de rosas
brancas,
comprado
em
frente
ao
cemitério.
Assim
que
transpõe
o portão
de
entrada,
a menina
adormece
a
saudade,
acorda a
curiosidade
e com os
olhinhos
vidrados
nas
lápides,
segue
lendo
nomes e
epitáfios
de cada
uma.
O cortejo da família se
distanciando,
ela se
distraindo
com
anjos,
santos,
crucifixos...
Suntuosidades
de
cimento
e
mármore.
De
repente,
o chão
desaparece
dos seus
pés.
Tudo
escurece.
A menina
grita
pela
mãe.
Nada.
Repete o
grito,
com mais
desespero
na
vogal.
Silêncio.
Por que
sua mãe
não a
ouve? E
sua tia,
suas
irmãs?...
Ela
começa a
se
lembrar
das
histórias
de
fantasmas
e
mortos-vivos,
que as
crianças
apavoravam
umas as
outras,
e suas
perninhas
passam a
tremer.
Vivendo
o horror
do
momento
percebe
que está
num
buraco
escavado
na
terra.
Uma
cova. E
com
caixão.
“Tinha
sido
enterrada
por sua
família”,
julga
aterrorizada.
Olha pra
cima e
vê o
céu.
Esperança!
Consegue escalar a parede
de terra
e barro,
com a
sensação
de que a
qualquer
instante
uma mão
lhe
puxaria
a perna.
Corre
até
alcançar
a
proteção
familiar,
coração
quase
saindo
pela
boca, e
não tira
mais os
olhos do
chão,
nem das
saias.
Túmulo da avó localizado,
a mãe
pede-lhe
as
flores.
Havia
deixado
naquele
buraco a
brancura
da roupa
e das
rosas. A
mãe
decide
voltar,
precisa
resgatar
a
homenagem
à
matriarca,
mas a
tia, voz
firme,
discorda:
- Aquele
defunto
está
carente
de
flores,
deixe-as
lá!
Sem compreender nada de
carências
póstumas
e
imaginando
que sua
avó
viesse,
à noite,
lhe
cobrar
também
as
flores,
a menina
oferta-lhe
suas
pétalas
mais
sentidas:
lágrimas
de culpa
e medo.
10/11/10
Música:
Andre
Gagnon -
Evelyne |