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Eu Não Mereço
Zena Maciel
Eu não mereço a lei da mordaça
que cala e sufoca
a voz doce
deste pobre coração!
Eu não mereço o cravo no peito,
marcado sem jeito, com o ferro maldito
da negra escravidão!
Eu não mereço o inferno ardente
que queima latente
a alma inocente
tão pura e carente
como as lavas quentes
das chamas de um vulcão
Eu não mereço este talho no rosto
que sangra o desgosto
e borda no corpo
as chagas da ingratidão
Eu não mereço estes sonhos estuprados
tristemente abortados
e brutalmente jogados
no poço da ilusão!
Eu não mereço a morte precoce
da vida
como uma hóstia seca e dormida
e amargamente servida
na taça fria da extra-unção!
Eu não mereço a rejeição do mundo
já sou vagabundo
não tenho teto nem chão
durmo sob as cortinas douradas das estrelas
que iluminam a dor da solidão!
13/10/2004
Ausência das
Flores
Zena Maciel
Cubro-me com as folhas
secas do tempo.
Vôo nas asas do vento
Acostumo-me a viver
com a ausência das flores.
Apago velhas fantasias
que bordavam os verdes dias
da fina colcha da ilusão.
Despeço-me das utopias.
Fecho as cancelas do passado
Acordo o enrugado coração
Visto-o com o véu do imaginário
Liberto-me das garras da solidão.
Sobrevôo as esquinas da dor
À alma dou novo alento!
Cubro-me nos lençóis
macios de um novo amor!
Recife-PE
Desentendimento
Humano
Zena Maciel
Olhar de acrílico
Sonhos de fibras óticas
Coração digital
Sorriso de metal
Alegria de silicone
Tristeza de ozônio
Ilusão de titânio
Fantasias de néon
Saudade virtual
Lágrimas sintéticas
Paixão de raio lazer
Amor de controle remoto
Emoções de laboratório
Vida! Por onde anda o
viver original?
Estará preso nas teias
do desentendimento humano
ou viver já não vale a pena?
Recife/13/03/2008
Imagens do Inconsciente
Zena Maciel
No céu da boca
das minhas fantasias
as cores bailam sob as
luzes da euforia.
Entre plumas e alegorias
bebem versos de elegias
na taça da ilusão!
Flores pálidas e amorosas
passeiam lépidas e vaidosas
nas alamedas da solidão
de braços dados com um poeta vilão!
Sorrisos estampados nos
rostos verdes da primavera
lembram as doces donzelas
que sonham com as quimeras
e desabrocham em flor!
Nas noites molhadas de felicidade
bebem gotas doces de saudades.
Aconchegam-se nas brumas
da eternidade dos poemas de amor.
Rasgam as cortinas da dor.
Deitam o corpo nu e sem pudor.
Entregam-se aos delírios e ao torpor
de um poema sedutor.
Na viagem do imaginário
abrem o velho relicário.
Curvam-se diante do sacrário
de um deus encantador!
04/11/2004
Recife-PE
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