Às vezes, só às vezes...
Tonho França



Às vezes, só às vezes
Nos porões, nas alcovas
Mais internas,
Ou nos sótãos que não abro.
Nas primaveras
Nas louçarias porcelanizadas
Em azuis decorados por tempos
Esquecidos passados,
Às vezes, só às vezes
Nas estantes onde repousam os livros
A tristeza emerge tão abrupta e voraz
Que minhas defesas, dissolutas
Desabam aos versos, vencidas
Pelas lágrimas absolutas, remidas
Imagens do que já foi a vida
 



Nossa música...
Tonho França



A melodia que o piano insiste
Dança no branco das paredes
Passeia pelas fotos ainda guardadas
Acende meus incensos
Espalha teu cheiro pela sala
Entre revistas, souvenir,
Faz sorrir o vestido azul
Da bailarina de porcelana
Que dormia sobre a caixa de música.
A melodia que o piano insiste
Ecoam em meus olhos, lágrimas claras
Acordes íntimos de nós,
Acordes de nós
Acordes
Sós.

 


Amores
Tonho França



Amores ficam na retina, nas redes vazias,
entre primaveras tardias, nos poemas que cantam
estrelas arredias pousando em mares ternos.
Amores ficam, amores eternos,
nas gavetas trancadas das lembranças eternizadas,
nos outonos tantos de ipês amarelos
amores ficam, amores eternos,
nas praças com nome de Marias ou Helenas,
nas igrejas, nos campanários,
na saudade que dispensa calendário
amores dançam nos casacos antigos invernos
melodias que ardem nas brasas quietas da lareira,
no vinho que embriaga o cálice nas sextas-feiras
nas horas em que anos dilacero, sentimentos imutáveis
amores ficam, amores eternos,
ainda que inalcançáveis
amores serão sempre amáveis...

 


Eu, em Mim...
Tonho França




Há flores nos olhos das mulheres
Que não amei
Há ruídos, passos perdidos, nos caminhos
Que não andei...

Há contas, entre os dedos, dos terços
Que ainda não rezei
Há absolvições em culpas
Que ainda não perdoei...

Há traços, em descompassos, nos versos
Que ainda não terminei
Há rimas, famintas, engasgadas
No poeta que nunca serei.

Há dias inteiros, atrás das cortinas
Que jamais abrirei.
E assim, em silêncio, me esqueço e brindo a vida...
Que jamais terei.




Paixão
Tonho França



Hoje, ao ver as lágrimas caindo
Por favor, deixe-me só.
Preciso de cada uma delas,
Em toda sua intensidade.
Deixe-me entregue a mim
E aos meus juizes,
Eu preciso do silêncio e
De tudo que vai em meu pensamento.
Não se aflija, é coisa de momento
Passa ao nascer do dia,
Acontece com coração de poeta,
Apaixonar-se pela poesia.
 



Medo de mim, amanhã...
Tonho França



Não que eu tema, mas os semáforos estão fechados
Os muros já foram erguidos, já recolheram as pontes.
A fantasia há muito não mora mais
nos olhos dos homens
Sonhar? Já não me atreveria.
Não que eu tema, o temor também se fez inútil e
a vida prossegue apesar de tudo, e sem condolências
as preces todas parecem presas por reticências
e os dias nascem por pura insistência,
os anjos dormem no azul longínquo da inocência
a cobrar-nos o despertar da consciência
E por ser ausente, torno-me cúmplice,
ainda sem intuito
Não posso dizer o que sinto,
E nem ao menos sinto muito.

 


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