Flores nas mãos


Em tarde bem chuvosa trago flores
Etéreas, em seus tão belos buquês
Colhidas pra enfeitar os meus porquês
Por conta de respostas a rumores.

A chuva traz de volta tantas cores
Em êxtases que afloram entre os "quês?"
Cobertas de perfumes e de chiquês
Fazendo reflorir murchos amores.

Eu olho as minhas mãos, arrependidas,
Por não terem tocado os corações
Nas flores que pisei nas despedidas.

A chuva cai agora aos borbotões
Lavando as ilusões esmaecidas
Das mãos vazias de idas emoções.

Cartas de Alforria
Escritos de Regina Coeli


 


Pedras no caminho



As pedras que eu encontro no caminho
São lágrimas caídas pelas ruas
Pingadas pelo chão em dores cruas
Do amor petrificado no eu-sozinho.

As pedras que eu encontro no caminho
Parecem ninfas-rosas, seminuas,
Largadas ante os sóis e ante às luas
Chorando, envergonhadas, bem baixinho...

Por que se maltratar com tal esgar
As pedras que, chutadas, se arrebentam
Em trêmulos soluços sem parar?

Ah, essas pedras choram e lamentam
Os choros de um alguém a soluçar
Tristezas empedradas que atormentam!

Cartas de Alforria
Escritos de Regina Coeli

 



Tão singular...



A minha visão de mundo
Teço à minha maneira;
É só espichar o olhar
Pros lados da goiabeira
E ver em festa os pardais
Em folia alvissareira.

A minha visão de mundo
É simples e bem certeira:
O mais fraco sofre sempre
Até numa brincadeira...
Eu vi um pardal grandinho
Num menor dando rasteira...

A minha visão de mundo
É minha, é garimpeira...
Garimpo as fases do dia,
De beleza altaneira,
Viajo na Natureza
Nos minutos em fileira.

A minha visão de mundo
Vai do chão à cumeeira;
Bem-te-vi bica o pardal
No alto da goiabeira;
Bem-te-vi expulsa o pardal
Que se banha na banheira.

Na minha visão de mundo,
Bem simplista (mas maneira),
Há o que manda e o que obedece,
Quer se queira ou não se queira...
Um dia os papéis se invertem
Pra fechar a brincadeira...

A minha visão de mundo?
Eu serei bem verdadeira:
É nessa diversidade
Que se vê, sobremaneira,
O mistério desta Vida
Em partes... e tão inteira!


Cartas de Alforria
Escritos de Regina Coeli

 

Busca



Vivia te procurando por aqui e por ali
Em tudo o que via, buscava te encontrar
No vôo do pássaro, das borboletas no voar
No farfalhar das folhas, no canto do bem-te-vi

Em cada passo, eu seguia a te buscar
Fiquei ao sol, na pele o calor a me cobrir
Andei na chuva, já não sabia mais aonde ir
Por cada canto eu te catava, sem te achar

Corri até o mar e segui as ondas no seu ir e vir
Olhei para o céu e vi uma nuvem passar e se sumir
Perdida estava eu a procurar, sem encontrar

Foi então que fechei os olhos, e vendo a mim, tudo vi
O que eu buscava não estava lá, estava aqui
Ó liberdade tão sonhada, estavas em mim a me buscar...


Cartas de Alforria
Escritos de Regina Coeli

 


Invasão




A cama me abraça, rendo-me a ela
Entre idas e vindas do pensar
O sono vem, me entorpece
E então, chegas a mim, vens me encontrar

Entras no meu sonho, absoluto
O mesmo olhar tão cativante
Que me olhava... sem me ver...
Traço de uma vida errante

Tu me perturbas, não te nego
Candura e indiferença, juntas
Compõem tudo o que ainda és
Jogavas a rede e te caíam muitas...

Insistes em ficar por uma noite
Rechaço, padeço, quase esmoreço
Abusas de toda a tua dengosa malícia
Queres desatar as amarras a qualquer preço...

Ressurjo bela, fêmea cobiçada
Entre suspiros e sentidos alterados
Sussurro ao teu ouvido, quase desperta:
Vai embora!
Chegaste só vinte anos atrasado...
Teu lugar foi ocupado...


Cartas de Alforria
Escritos de Regina Coeli


 

Pão com Manteiga



Quando eu era menininha
Vivia com meus pais e três irmãos
Tinha café da manhã e da tardinha
Era café com leite, manteiga e pão

Família de pouco dinheiro
Rédea curta na despesa, mamãe tinha
Pra poder fazer render o cruzeiro
Por vez, só comprava duas bisnagas de pão

Abria as duas bisnagas em quatro metades
Subia com o facão passando manteiga na ida
E tirava quase toda a manteiga na volta...
Poxa, a gente dizia, nada fica em cima do pão!

Mamãe juntava outra vez as metades
Sob o olhar ansioso dos quatro
Era a hora da "repartição"
(Humm... pensava eu, quanto eu vou ganhar de pão?)

Olhares gulosos acompanhavam o facão
Ágil e rápido nas mãos de mamãe
Fazendo aparecer como por mágica
Quatro pedaços, quatro distintos tamanhos de pão...

Mamãe Maria inicia a distribuição
De uma das bisnagas cortadas
O maior pedaço vai para o mais velho irmão
Dizia mamãe: "Que estuda muito e precisa de pão"...

O pedaço que sobra, o da ponta, é pequeno e fininho
E vem para a minha mão
Ah, reclamo aborrecida...
Que miserê este pedaço de pão!

Minha mãe diz que tudo está certo
Que criança pequena come pouquinho
E eu pergunto: como vou crescer, então...
...comendo sempre um tiquinho de pão?

E a outra bisnaga vai para os dois outros irmãos
Quase meio a meio, que tantão...
E eu com duas bocadas
Acabo com meu pedaço de pão!

E essa divisão desigual acontecia
De segunda a domingo, duas vezes ao dia
Era muita humilhação!
Uma raspinha de manteiga, quase nada de pão...

Por muito tempo durou essa situação
Até que...as crianças viraram adultos
Mudaram seus hábitos de nutrição (menos eu)
Deixando de comer pão...

Tenho hoje muita saudade
Daquele tempo ido, daquela divisão
Mamãe voou para o céu, deixou o facão
Não há por perto nenhum irmão
Cá estou eu agora, sozinha e saudosa de tudo...
...comendo uma bisnaga inteira de pão!


Cartas de Alforria
Escritos de Regina Coeli

 

 


 

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