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Despercebimento
José Antonio
Jacob
Dentro dos seus sapatos desbotados
Ele saiu de casa e foi distante,
E foi além da conta, andou bastante,
Até achar caminhos nunca achados.
Esse homem, descontente e itinerante,
Não disse adeus quando se foi aos lados,
Deixou atrás de si rostos molhados
E colocou a Sorte vida adiante.
Depois, voltou, trazendo na memória
O que o Mundo não lhe pode servir,
E ao retornar à casa: ó Sorte inglória!
Nenhum sorriso amado viu sorrir...
Chamou, cantou, chorou, contou história,
Mas ninguém quis saber e nem ouvir.
Noite no Bar
José Antonio
Jacob
Daqui do bar a noite é pobre criança
Que, lá de fora, espia da vidraça,
A espuma doce que desliza mansa
E que escorrega no cristal da taça.
E dos meus olhos feitos de fumaça,
De indiferença ao lustre que balança,
Envio acenos de desesperança
Detrás do copo onde a bebida passa.
Quando já não me basta mais um trago
Remexo no meu bolso, dou um afago,
E uma pequena foto se revela.
Bem desgastada dos carinhos meus
E amarelada do sorriso dela
Onde no verso está escrito: Adeus!...
O
Beijo de Jesus
José Antonio
Jacob
Eu era criança, mas já percebia,
O pouco pão que havia em nossa mesa
E a aparência acanhada da pobreza
Que tinha a nossa casa tão vazia.
De noite, antes do sono, uma certeza:
A minha mãe rezava a Ave-Maria!
E ao terminar a prece eu sempre via
No seu olhar uma esperança acesa.
Após a reza desligava a luz,
Beijava o crucifixo, e a fé era tanta
Que adormecia perto de Jesus.
Depois que ela dormia (isso que encanta)
Nosso Senhor descia ali da cruz
Para beijar a sua face santa.
Delírios de Maio
José Antonio
Jacob
Estou triste outra vez, é o mês de maio,
Por que não abro a minha porta e saio?
Fico da greta espiando na calçada,
E olho lá fora a tarde sorridente,
As pessoas alegres, e eu descrente,
Não sei por que não creio mais em nada?...
E isto num mês tão lindo, um mês de flores,
Época das promessas, dos amores,
Dos feriados que a Igreja comemora.
Dos anjinhos com asas de algodão,
Pequenos pajens que em cortejo vão
Piedosos coroar Nossa Senhora.
Soa o sino seis vezes, ai que pena!
Vejo uma moça saindo da novena
Enrolando um tercinho no seu dedo...
Ah, como ela é bonita e tão viçosa!
E vai - qual uma delicada rosa -
Desfiando seus espinhos em segredo.
Mais atrás vem um grupo de beatas,
Felizes criaturinhas de alpargatas,
Encurvadinhas, rindo, coitadinhas...
Elas voltam das rezas, aliviadas,
Porque suas penas foram perdoadas...
Mas que culpas tinham essas santinhas?
E o suave som da doce ave-maria
Desperta um caburé, que voa e pia,
Depois vem aninhar-se em meu telhado.
Xô, daí, mau agouro! Espanto o Azar,
Que num sobrado em frente vai pousar,
E eu fico no meu canto sossegado.
No adro da igreja um homem solta fogos
E abre a feira, de doces e de jogos,
Bem em cima da sombra do Cruzeiro.
E mais em cima o Cristo, mudo, entende,
Que ainda hoje o Judas Iscariotes vende
A prenda do amor por qualquer dinheiro.
Dois cegos abraçados nas beiradas,
Vão girando as córneas azuladas,
Um coxo vem pulando feito mola,
Tentando andar ao lado do prefeito
Para que todos vejam seu defeito,
No chão uma mulher pede-lhe esmola...
De um poste o alto falante da quermesse
Anuncia uma música e uma prece.
Hora do Ângelus... Cai a tarde morta...
E lá no céu os anjos fazem coro,
Dentro de casa escuto o amargo choro
De uma criança faminta em minha porta.
Eu sofro da alma, eu tenho essa moléstia,
Que encurva o meu espírito em modéstia
E que me parte o coração de pena...
De esse acanhado olhar que não me estranha,
Que me chama, me pede e me acompanha,
E me implora com sua voz pequena...
Chego à janela e fico pensativo
(Aposto que pareço um morto e vivo)
Com meu dedo no queixo a resmungar...
E quando o riso alegre de uma criança
Repuxa no meu rosto uma esperança
Apago a luz para ninguém notar.
Fico dali olhando a noite clara,
Não gosto de mostrar a minha cara,
E aconcho as mãos no rosto feito um jeca.
Uma jovem senhora dobra a esquina,
Ela vem embalando uma menina
E a menina embalando uma boneca.
Um tipo estica um pano na calçada,
E abrindo um jogo com carta marcada,
Puxa um curioso para ser parceiro...
A aposta corre solta à luz da lua,
Passa um soldado, que atravessa a rua,
Para não molestar o trapaceiro.
As bombas de artifício estouram o ar,
Derramando mais cores no luar,
E a meninada corre para vê-las...
Recurvo-me à janela, mais um pouco,
E encanto-me de ver um ébrio louco
Declamando Camões para as estrelas.
Duas moças que passam batem palmas,
E o bêbedo com três manobras calmas
Dobra os joelhos na rua iluminada...
E elas seguem, sorrindo e divertidas,
E vão levando suas jovens vidas
Para o destino incerto da calçada.
(Publicação
devidamente autorizada por ArtCulturalBrasil) |