Minha Cor-de-Rosa
Ilka Vieira



Preciso resgatar a minha Cor-de-Rosa!
Perdi-a no decorrer da vida...
Tornei-me nebulosa,
Fazendo-me fortalecida.

Fui trancando o glamour...
Abrindo a face valente...
Apagando meu abajour,
Fiz-me inevidente.

Deixando a jarra vazia sobre a mesa,
Flores ao relento pediam-me moradia.
Saindo das paixões à francesa,
Perdi a noção de companhia.

Desmarcando parcerias de dança,
Esqueci como dançar...
O silêncio foi marcando o descompasso...
Não dancei... não vi o dia raiar...

Hoje, a farda impecável
Faz-se mais feia do que a roupa desbotada.
O dedo indicador ordenável
Impulsiona minha alma delicada.

Agora entendo:
Vão-se as responsabilidades exageradas...
De nada vale a vida ou vale quase nada,
Se a minha cor-mulher está tão recolhida...
Se a minha cor-de-rosa está descolorida...

Que venha o meu pôr-de-cor,
Colorirei...
Que caiam as pétalas,
Brotarei, sei que brotarei!...




Coração Múltiplo
Ilka Vieira



Tenho um coração andarilho...
Colhedor de histórias recicladas,
Fere-se com espinhos de flores não regadas,
Rega flores de almas abandonadas.

Tenho um coração sentenciado...
Cumpridor da pena estabelecida,
Especula pelas grades
Remorsos de vidas bandidas.

Tenho um coração varredor...
Sai tirando da frente
Tudo que o desmente...
Faz dessa loucura sua impostura.

Tenho um coração hospedeiro...
Abre a porta sem enxergar a alma,
Mas nem um tiro certeiro
O faz perder a calma.

Tenho um coração complicado...
De dia, sobrevive ao amor;
De noite, morre embriagado.




Cárcere do Olhar
Ilka Vieira



Vê o que fizeste do meu olhar!
Prisioneiro do teu ciúme,
Limita-se a perambular
Sem vida... sem lume...

Encarcerado,
Meu olhar gira em torno de ti,
Minhas quatro paredes...
Violenta-se matando tua sede,
Destempera-se, aquietando tua inquietude,
Ajoelha-se ao pé do teu olhar rude,
Cumpre pena por ter nascido belo,
Finge-se de cego, evitando um duelo,
Mas não perde a poesia
Nem o sonho de liberdade
Que a alma esconde sem grade.

 


Coisas de Mulher

Ilka Vieira



Há dias em que acordo
De caso comigo mesma;
Faço da janela fechada
Um belo horizonte...
Da cara feia, a simpatia...
E da jarra vazia,
Flores saltitantes.

Há dias em que sou
Meu próprio nutrimento...
Sirvo-me de coisas que gosto,
Enfeito-me de arte e movimentos...
Esbanjo línguas e temas...
Recebo visitas e dou telefonemas...
Apago as luzes e me sinto iluminada.

Há dias em que assino o divórcio,
Fecho-me em copas e dou murro em facas,
Brigo com o sol e expulso a lua,
Cubro-me e me sinto completamente nua;
Embarco a tristeza na esperança do dia seguinte...


 

 


 

Recolhimento de Sonhos
Ilka Vieira



Deixei pegadas nas estradas da vida,
Mas sua avidez não soube segui-las.
Plantei flores ao alcance do seu olfato,
Mas outras essências o atraíram
E o desviaram do nosso trato.
Incumbi o mar de lhe falar
Sobre minhas melodias de saudade,
Mas o próprio mar previu desamor
E silenciou
Quando você passou.
Encontrei pelo caminho
Pássaros sobrevoando a esperança
E me fizeram lembrar
Nosso romance de criança:
Promessas,
Beijos envergonhados,
Olhares por frestas proibidas,
Abraços ingênuos... constrangidos,
Troca de poemas às margens de vigílias.

Hoje, estaciono a alma
E varro os sonhos com calma,
Pela tristeza do nosso amor falecido.

 

 

 

Deportando o Passado
Ilka Vieira



Misteriosa faz-se a soma
De tudo que se foi
E permanece...
E incomoda
Como se fosse o presente
Tão latente de uma dor.
Ainda que deportado,
Faz-se passado porque
Não é presente,
Mas leva os sonhos...
Leva-nos tudo...
Nos leva,
Mas fica...
Se guarda
E nos reserva a tortura
De conviver com ele,
Independente da nossa vontade.

 

 
 
 

 

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