Corpo, por que trancaste a alma em tua fria masmorra?
Por que deixaste teus carrascos lhe vedarem a inspiração?
Será que ao tirares seu alimento esperas que ela morra
e tu saias vencedor nessa inútil competição?
Ah! Corpo, se soubesses a alma que te habita,
não a maltratarias com lancinantes dores;
se soubesses o quanto com a poesia ela volita,
só lhe ofertarias da vida os delicados sabores.
A carne por paixões se contorce e clama,
a pele transpira e exala o desejo interno,
mas é a alma que, se não quiser, não ama,
o que da essência ela levará para o Eterno.
Por isso, de teus algozes olhos, a alma só quer ver,
não o pranto e a destruição da guerra,
nem a fome e as doenças que eles não conseguem esconder,
mas sim o surgir do amor unindo toda a Terra.
Que tuas frias mãos a façam sentir o toque da ternura,
a satisfação de um trabalho completado,
a ajuda ao próximo conduzindo-lhe a quentura
de se saber quando tu, corpo, fores abraçado.
Que teus dolentes pés não fraquejem e a levantem,
quando algum empecilho a fizer desanimar...
Junto com a música e com ela dancem
os sons das canções que a ajudarão a se enlevar.
Aguça teus moucos ouvidos à melodia da natureza,
às vozes que só lhe tragam a verdade,
ao “obrigado” respondido a uma gentileza,
ao “eu te amo” dito com a boca da sinceridade.
Acorda dos incolores sonhos a alma adormecida,
liberta teus carrascos condutores ao sublime e ao belo,
porque bens sabes: antes que ela se dê por vencida,
deixará, envelhecido e em ruínas, o que já foi o seu castelo.
29/07/06
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