Anistia
Marise Ribeiro





Há dias em que penso ser pássaro,
Para volitar com as carícias do vento,
Nidificar doçuras em lugares incertos,
Na ânsia de voar, me redescobrir...
... Mas as asas não querem se abrir.

Há dias em que penso ser borboleta,
Namoriscar canteiros com beijos de cortesãs,
Em suaves bailados, evoluir manhãs...
... Mas, na ilusão de que emoções açulo,
Morro ainda larva no casulo.

Há dias em que tento singrar mares,
Na maresia das paixões me aventurar,
De porto em porto um acolhimento...
... Mas as velas da minha inquietude
Sequer se inflam ao sabor do vento.

Há dias em que penso ser bailarina
Ou vestir a pele de bela colombina
Em busca de uma ilusão qualquer...
Quero ser até uma sedutora mulher...
... Mas minha fantasia em cinzas termina.

Há dias em que tento me embriagar,
Beber as dores de bar em bar,
E me sentar com a saudade e a solidão...
... Mas, no primeiro trago adocicado,
Elas me traem e correm pra mesa ao lado.

Há dias em que penso ser poeta,
Transpor uma passagem secreta,
Para em devaneios me perder...
... Mas os sonhos rapidamente acordam
E de vigílias minhas noites bordam.

Há muito tempo o tempo se esvai,
E as palavras, contumazes fugidias,
Andam me ofertando silêncios perversos...
Será que por algum decreto de anistia,
Compadecidas, libertaram estes versos?


03/05/11





Música:  Ernesto Cortazar - Honey (Album Journey Around The World)


 

 
 
 
 

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Página inserida em maio/11