Abstrata
Marise Ribeiro




 


 

Tenho um sonho recorrente

que chega a mim nebuloso,

embaçado, impreciso...

É sempre a imagem de um rosto

diante de um espelho fosco.

Homem? Mulher? Não diviso.   

 

Não consigo discernir um sorriso,

só tristeza e lágrimas. 

É uma face sem traços...

Tateio a figura como uma cega 

em total desamparo...

Acordo e anseio seus braços,

mas estou só... sem abraços. 

 

Torturo-me em angústia e esmoreço...

Procuro retornar ao sonho do começo,

mas ele escondido, não dorme,

deixando-me insone e sem entender

o porquê daquele rosto disforme. 

 

Fico pensando, com a alma partida,

se isso acontece por ter sido ingrata:

tinha você e não soube me doar,

por isso o remorso a me matar.

Falta um rosto que me arrebate,

para que eu não viva de forma abstrata.




26/07/05


 

 
 
 
 
 

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