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Cansada de Mim
Zena Maciel
Estou cansada de andar na contramão da vida
De lamber as flores feridas
com o amargo sabor de sangue
De pintar as mesmas fantasias
De mirar o céu das plúmbeas agonias
Estou cansada de limpar a alma suja
De obedecer aos caprichos do cego destino
De seguir passos sem tino
pela longa estrada à fora
Estou cansada de tirar as pedras do caminho
e não saber onde jogá-las
De tentar rasgar as folhas do passado
De tanto olhar para o amanhã,
esquecer de viver o hoje
Estou cansada de beijar
os lábios da opaca esperança
De ver os sonhos com olhos de criança
e acreditar na felicidade
Estou cansada de vestir o avesso dos dias
sem as cores da alegria
De refazer os mesmos planos
De cometer os mesmos enganos
De debulhar o tempo e nada colher
Estou cansada de lustrar os velhos pensamentos
De beber a lágrima seca da dor
De rezar no terço do amor
De esconder-me sob o manto da solidão
Estou cansada de sorrir com viés do sorriso
De acreditar que, por trás do arco-íris,
cintiliza a luz do paraíso
De chorar, com a alma exaurida,
o pranto infértil da infelicidade
Estou cansada de não saber
unir a razão e o coração
De não entender os labirintos da ilusão
De ter que seguir em frente,
por não ter um porto onde ancorar
Estou cansada do mundo!
Estou cansada de tudo!
Estou mesmo é cansada de mim!
Oxalá, que não tenha um triste fim!
Recife –PE
http://geocities.yahoo.com.br/zenainversos/index.htm
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Descansando a Dor
Marise Ribeiro
Dilacerei o passado doído,
mal resolvido...
Joguei seus espinhos no mar do esquecimento,
doei a roupa rasgada da alma,
manchada de sangue vivo,
arranquei do álbum velhos momentos,
registros de um sorriso em tormento...
Olhar embaçado, em agonia, lento...
Velhos rabiscos amarelados,
por masoquismo, guardados... queimei...
Quebrei os cristais
com o líquido enfeitiçado pelo amargor...
O abraço do inferno domei...
Silenciei os gritos, os internos conflitos...
Fiz-me em ninhos...
Aconcheguei o que havia perdido,
a essência deixada em desalinho...
Aqueci a saudade até brotar a claridade...
Cantei a infância na ânsia da espera...
Fiz-me quimera...
A tudo que eu era dei cor...
Como um trovador peregrinei,
cantei...
Fertilizei meu deserto submerso...
E só então...
Fiz-me Universo!
18/03/07 |